4. BRASIL 9.10.13

1. OPERAO FRANA
2. AS ESCOLHAS DE MARINA
3. O GOVERNO REAGE
4. AS BANCADAS PAGAM A CONTA
5. AUTONOMIA X SEGURANA

1. OPERAO FRANA
Investigaes chegam ao topo do esquema e mostram que lderes tucanos operaram junto com executivos franceses para montar o propinoduto do PSDB paulista. Os acordos comearam na rea de energia e se reproduziram no setor de transporte trilhos em SP
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Srgio Pardellas

As investigaes sobre o escndalo do Metr em So Paulo entraram num momento crucial. Seguindo o rastro do dinheiro, a Polcia Federal e procuradores envolvidos na apurao do caso concluram que o esquema do propinoduto tucano comeou a ser montado na rea de energia, ainda no governo de Mrio Covas (1995-2001), se reproduziu no transporte pblico  trens e metr  durante as gestes tambm de Geraldo Alckmin (2001-2006) e de Jos Serra (2007-2010) e drenou ao menos R$ 425 milhes dos cofres pblicos. Para as autoridades, os dois escndalos esto interligados. H semelhanas principalmente no modo de operao do pagamento de propina por executivos da multinacional francesa Alstom a polticos e pessoas com trnsito no tucanato para obteno de contratos vantajosos com estatais paulistas. Nos dois casos, os recursos circulavam por meio de uma sofisticada engenharia financeira promovida pelos mesmos lobistas, que usavam offshores, contas bancrias em parasos fiscais, consultorias de fachadas e fundaes para no deixar rastros. A partir dessas constataes, a PF e o MP conseguiram chegar ao topo do esquema. Ou seja, em nomes da alta cpula do PSDB paulista que podem ter tido voz ativa e poder de deciso no escndalo que foi o embrio da mfia dos transportes sobre trilhos. So eles os tucanos Andrea Matarazzo, ministro do governo FHC e secretrio estadual nas gestes Serra e Covas, Henrique Fingermann e Eduardo Jos Bernini, ex-dirigentes da Empresa Paulista de Transmisso de Energia Eltrica (EPTE). Serrista de primeira hora, Matarazzo  acusado de corrupo por ter se beneficiado de vantagens oferecidas pela Alstom. De acordo com relatrio do MP, as operaes aconteciam por meio dos executivos Pierre Chazot e Philippe Jaffr, representantes da Alstom no esquema que teria distribudo mais de US$ 20 milhes em suborno no Pas.  a chamada conexo franco-tucana.

Para avanar ainda mais nas investigaes e conseguir esquadrinhar com preciso o papel de cada um no esquema, a procuradoria da Repblica obteve judicialmente a quebra dos sigilos bancrios e fiscais dos trs lderes tucanos e de mais oito pessoas. Constam da lista lobistas, intermedirios e secretrios ou presidentes de estatais durante a gesto de Mrio Covas (PSDB) em So Paulo. A ordem judicial tambm solicitou informaes sobre o paradeiro dos dois executivos franceses. As investigaes conduzidas at agora j produziram avanos importantes. Concluram que parte da propina paga pela Alstom abasteceu os cofres do PSDB paulista. Documentos e depoimentos obtidos tambm j foram considerados suficientes para Milton Fornazari Jnior, delegado da Polcia Federal, estabelecer que as ordens dos executivos franceses Pierre Chazot e de Philippe Jaffr eram suficientes para convencer os mais altos escales do governo estadual a conceder a Alstom vitrias em contratos superfaturados para o fornecimento de equipamentos no setor de energia. Eles usavam aquilo que um executivo da empresa francesa qualificou de poltica de poder pela remunerao.
 
Uma srie de evidncias demonstra que a mfia na rea de energia serviu como uma espcie de embrio do cartel dos trens. Ao elencar os motivos do pedido de quebra de sigilo, o procurador da Repblica Rodrigo de Grandis faz a ligao entre os dois esquemas ao destacar a existncia de contratos de consultoria fictcios utilizados para o pagamento, entre abril e outubro de 1998, quando a Alstom T&D (por meio do consrcio franco-brasileiro Gisel) e a Eletropaulo negociavam um contrato aditivo  obra de reforma e expanso do Metr de So Paulo.
 
Os mtodos para acobertar os pagamentos de suborno utilizados pela Alstom se assemelham aos de outras empresas do cartel dos trens, a exemplo da Siemens. Como ISTO mostrou em julho, a multinacional alem, por meio de sua matriz ou filial brasileira, contratava as offshores uruguaias Leraway Consulting S/A e Gantown Consulting S/A, controladas pelos lobistas Arthur Teixeira e Srgio Teixeira, falecido. Os irmos ficavam encarregados de intermediar ou distribuir o dinheiro da propina. Porm, o nmero de empresas em parasos fiscais usadas pela Alstom para encobrir o pagamento dos subornos pode ter sido bem maior. Pelo menos cinco j foram identificadas: a MCA, comandada por Romeu Pinto Jnior e com sede no Uruguai, a Taltos, a Andros, a Janus e a Splendore. Elas eram operadas pelos franceses Pierre Chazot e Philippe Jaffr, ento executivos da Alstom, por meio de procuraes. Eles abriam contas nos Estados Unidos e na Sua e distribuam os recursos. Foi atravs dessa engrenagem que o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e homem forte do governo Mrio Covas, Robson Marinho, recebeu cerca de US$ 1 milho em uma conta na Sua. O montante encontra-se bloqueado pela Justia do pas europeu.
 
Se algum preferisse receber no Brasil, os executivos da francesa Alstom tambm se encarregavam de fazer o caminho de volta por um doleiro. Em depoimento ao Ministrio Pblico, Romeu Pinto Jnior confirmou que recebia os valores em notas e que o executivo Pierre Chazot lhe ordenava entregar os pacotes com dinheiro em espcie a pessoas. Porm, inacreditavelmente, declarou que desconhece a identidade daqueles que foram os destinatrios dos polpudos envelopes. Parte do dinheiro que chegou s mos de Romeu veio pelo doleiro Luiz Filipe Malho e Sousa. Ele assumiu para as autoridades ter feito duas remessas de contas da MCA do Exterior para o Brasil. A primeira no valor de US$ 209.659,57, destaca documento do MPF. A segunda no valor de US$ 298.856,47, consta em outro trecho. A origem de ambas as operaes era uma conta da MCA no banco Union Bacaire Prive, de Zurique, na Sua.

PROPINODUTO - A multinacional francesa Alstom teria distribudo mais de US$ 20 milhes em propina
 
Assim como outras empresas do cartel, o conglomerado francs tambm lavava o dinheiro da propina em territrio nacional. O esquema consistia em contratar empresas brasileiras que emitiam notas de servios que nunca foram prestados. Em troca de comisso, os valores pagos eram repassados pelos contratados a polticos e servidores pblicos, sempre seguindo as ordens dos executivos do grupo francs. Era esse servio que a Acqua Lux Engenharia e Empreendimentos, com um nico funcionrio, desempenhava. A principal origem de receitas (da Acqua Lux) advm de servios prestados  Alstom T&D Ltda., destaca documento do MPF. Os peritos verificaram a possibilidade de a empresa, nos anos 2000 e 2001, no ter prestado efetivamente servios para a Alstom, diz o MP em outro trecho. O proprietrio da companhia, Sabino Indelicato, figura entre os indiciados pela Polcia Federal. Na Siemens, a encarregada dessa funo era a MGE Transportes, dirigida por Ronaldo Moriyama. De acordo com uma planilha de pagamentos do conglomerado alemo, j revelada por ISTO, a empresa alem pagou  MGE R$ 2,8 milhes at junho de 2006. Desse total, pelo menos R$ 2,1 milhes foram sacados na boca do caixa por representantes da MGE para serem distribudos a polticos e diretores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).
 
Tambm chama a ateno da Polcia Federal e do Ministrio Pblico o fato de os dois escndalos utilizarem lobistas e consultores em comum. Um deles  Jorge Fagali Neto. Ex-secretrio de Transportes Metropolitanos do Estado de So Paulo (1994) e diretor dos Correios na gesto Fernando Henrique Cardoso, Fagali Neto  conhecido pelo seu bom trnsito entre os tucanos. Seu irmo Jos Jorge Fagali foi presidente do Metr na gesto de Jos Serra e  investigado pelo MP e pelo Tribunal de Contas Estadual por fraudar licitaes e assinar contratos superfaturados  frente do estatal. Em 2009, autoridades suas sequestraram uma conta conjunta com US$ 7,5 milhes de Fagali Neto com Jos Geraldo Villas Boas  tambm indiciado pela PF. A quantia depositada no banco Leumi Private Bank AG teve como origem o caixa da francesa Alstom. Agenda e e-mails entregues por uma ex-funcionria de Fagali Neto ao MP mostram que ele prestava servios tambm a outras empresas da rea de transporte sobre trilhos relacionadas ao cartel. Entre elas, a canadense Bombardier e Tejofran. O seu interesse pelo setor  tamanho que, por e-mail, ele recebeu irregularmente planilhas de um projeto ainda em desenvolvimento de Pedro Benvenuto, dirigente da Secretaria de Transportes Metropolitanos de So Paulo demitido nas esteiras das acusaes. Em outra troca de mensagens com agentes pblicos, Fagali Neto tambm mostra preocupao com a obteno de financiamento junto ao Banco Mundial (Bird), BNDES ou JBIC para as obras das linhas 2 e 4 do Metr paulista. Tamanha interligao entre os esquemas, segundo o Ministrio Pblico e a Polcia Federal, no  mera coincidncia.


2. AS ESCOLHAS DE MARINA
Ela saiu da disputa presidencial com mais de 20 milhes de votos, desprezou a poltica tradicional, mas no foi capaz de montar seu novo partido. Agora, barganha para se aliar ao que criticou na esperana de exercer influncia em 2014
Josie Jeronimo

COM QUE ROUPA EU VOU - Marina Silva decidiu que ir participar do processo 
poltico em 2014. Falta definir o figurino
 
Na noite de quinta-feira 3, quando o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou, por 6 votos a 1, o pedido de registro da Rede Sustentabilidade, teve incio uma nova etapa na carreira de Marina Silva, ex-senadora, ex-ministra, titular de 19,6 milhes de votos na eleio presidencial de 2010 e segundo lugar em todas pesquisas de inteno de voto para 2014. Sempre capaz de reconhecer a diferena entre ganhar perdendo e perder ganhando,  Marina Silva despediu-se com palavras de nimo do grupo de aliados que fez questo de acompanhar a deciso do tribunal ao vivo e a cores. No posso estar decepcionada. Hoje nessa corte disseram que ns temos requisitos para um partido: programa, representao social e tica. Temos o registro moral.
 
Na sexta-feira 4, Marina decidiu prolongar a agonia de aliados  que esperavam uma deciso sobre seu futuro. Amanh eu darei uma resposta, disse. Eu ainda tenho uma noite e um dia. Mesmo assim, deu sinais de que pretende ser candidata. Quero mudar a polarizao na disputa presidencial e contribuir para a poltica no Brasil. A postura de Marina produziu reaes exasperadas entre seus aliados, em particular parlamentares que necessitavam desesperadamente de uma definio at o sbado 5, para saber que rumo tomar antes do prazo legal para filiar-se a um partido poltico. Mas  um movimento que tem sua razo de ser. 

Depois de receber a medalha de bronze em 2010, Marina passou os ltimos anos ocupada em reforar seu mito poltico particular. Mantendo-se longe de articulaes obscuras que o eleitor identifica com um sistema poltico que rejeita, ela cresceu junto a cidados, especialmente jovens, que procuram o novo  aquilo que ningum consegue definir direito o que , mas  que todos acreditam identificar quando vm. Com essa atitude, ganhou terreno junto aos brasileiros que estiveram na liderana dos protestos de junho e logo confirmou  primeira posio entre oposicionistas. Nessa situao, seria muita imprudncia, menos de 24 horas depois da deciso no TSE, correr para buscar abrigo num dos diversos partidos que abriram as portas para abrigar sua candidatura. Seria difcil escapar da acusao de oportunismo, que pode ser amenizada aps uma espera um pouco mais, quando devem chover apelos favorveis a sua candidatura.

CONCORRENTES - Sem a Rede, Eduardo Campos (PSB) e Acio Neves (PSDB) tentam atrair a ex-senadora 

Quando falta exatamente um ano para a votao, os dados so preocupantes para a oposio. Com 38% das intenes de voto, Dilma Rousseff tem, em teoria, condies de liquidar a fatura j no primeiro turno. Seus adversrios  Marina Silva, Acio Neves, e Eduardo Campos  somam 32% dos votos. O detalhe  que Marina, sozinha, rene a metade dessa votao. Caso uma candidata com essa estatura ficasse fora da disputa, Dilma poderia solidar a vantagem atual em bases ainda maiores. Segundo uma pesquisa do Ibope, divulgada na sexta-feira, destinada a levantar o destino dos eleitores que ficariam rfos de Marina, a partilha seria favorvel a Dilma, em quase 60%.  
 
Entre a candidata atual  e aquela que ficou com a medalha de bronze, em 2010, h uma diferena notvel. Na campanha passada, Marina fez o papel de madrinha de Jos Serra. Seu crescimento garantiu o segundo turno na reta final, quando recebeu uma massa de eleitores evanglicos, permitindo a passagem de Serra na rodada final. A pergunta de 2014, que j provoca um  franzir de sobrancelhas entre estrategistas do palanque ao lado,  saber se, caso venha concorrer,  ela ir cumprir essa funo de alavanca de candidaturas alheias, ou se ter oxignio e musculatura para participar de um eletrizante segundo turno entre duas candidatas-mulheres e toda carga simblica que isso significa.
 
O fator adverso para Marina manter uma boa sade ao longo de toda campanha  um obstculo de natureza semelhante ao que enfrentou para registrar a Rede. Sua candidatura tem um carter essencialmente individual, sem apoio em articulaes  orgnicas, que costumam cumprir um papel essencial na luta pelo voto em cada estado, cada cidade, cada periferia. O partido de Marina no tem organograma mas personograma, critica o deputado Jos Luiz Penna, presidente do PV, com quem a candidata rompeu antes de formar a Rede.  
 
Em 2013  Marina permanece fiel ao discurso ambiental, bandeira que teve o mrito de empunhar quando estava longe de ser uma moda ideolgica. Mas seu mundo atual est longe do universo alternativo. Numa expresso do novo desenho poltico produzido no pas uma dcada depois da chegada de Luiz Incio Lula da Silva ao Planalto, Marina  hoje uma candidata que coleciona apoios entre personalidades acima de qualquer suspeita no universo da economia, das finanas e mesmo da Justia.  sintomtico que tenha cabido ao ministro Gilmar Mendes, do STF, dar o nico voto favorvel a Rede no TSE. Estamos contando uma histria que enche o Brasil de constrangimento, disse o ministro, referindo-se  deciso da maioria de seus pares.
 
No primeiro escalo dos conselheiros de Marina, encontra-se o economista Andr Lara Resende, um dos principais responsveis pela poltica econmica do Fernando Henrique Cardoso, arquiteto do Plano Real e dos programas de privatizao. Companhia de todas as horas  estava ao lado da candidata na sesso do TSE  a banqueira Maria Alice Setbal   uma das herdeiras do grupo Ita, que teve um lucro lquido de R$ 7 bilhes no primeiro semestre de 2013. 
 
Assim que a rejeio ficou definida, por 4 votos a 0,  assistiu-se a uma debandada de deputados no plenrio do TSE. Confiando no sucesso da empreitada, eles haviam esvaziado as gavetas nas legendas de origem. J fora do PT, o maranhense Domingos Dutra, chegou a engasgar ao admitir que teria de filiar-se a Solidariedade, de Paulinho da Fora, um antigo adversrio, para seguir na carreira parlamentar. Queixando-se que haviam sido deixados num ambiente de salve-se quem puder, outros aliados tiveram uma conversa tensa e dura com Marina, que se prolongou at as cinco da madrugada. Um dos mais inconformados era um de seus aliados mais firmes e antigos, Alfredo Sirkis. Ele acusou Marina de lanar os parceiros numa situao de salve-se quem puder depois da rejeio do TSE.  


3. O GOVERNO REAGE
Poder de atrao da mquina governista se impe e Planalto consegue evitar que Solidariedade se bandeie para a oposio e ainda diminui a influncia do PSB no Nordeste
Claudio Dantas Sequeira

CARGO  PODER - A presidenta Dilma Rousseff se valeu da natureza fisiolgica dos partidos para mant-los em sua base de apoio  
 
Sob ameaa de perder aliados necessrios para formar palanques robustos em 2014, o Planalto deu incio, na semana passada, ao contra-ataque para defender a reeleio de Dilma Rousseff. Em uma reunio no Palcio, o governo decidiu montar uma fora-tarefa poltica formada pelos ministros Aloizio Mercadante (Educao), Alexandre Padilha (Sade), Ideli Salvatti (Relaes Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil). Com a popularidade de Dilma em alta  o mais poderoso argumento para conquistar alianas em vspera de campanha eleitoral , alm de promessas de cargos e apoio financeiro, eles saram em campo na busca de legendas e parlamentares desgarrados. Ao que tudo indica, a operao deu certo. Em meio ao troca-troca partidrio promovido nos ltimos dias, s vsperas do fim do prazo para mudana de legenda e criao de novas siglas com vistas s eleies de 2014, o governo conseguiu trazer para suas fileiras  contrariando os prognsticos  a maioria dos quadros do Solidariedade, de Paulinho da Fora, at aqui um de seus inimigos mais estridentes. Numa outra frente estratgica, ainda quebrou a espinha dorsal do PSB no Nordeste, numa tentativa de isolar o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, possvel candidato ao Planalto numa trincheira oposta  de Dilma.

GOVERNISTA DE CARTEIRINHA - Para fragilizar Eduardo Campos, o governador do Cear, Cid Gomes, deixou o PSB e manteve a fidelidade de cinco deputados federais, 11 estaduais e metade dos prefeitos do Cear

A operao destinada a fragilizar Campos comeou na quarta-feira 2, quando os irmos Cid e Ciro Gomes deixaram o PSB e anunciaram a filiao ao PROS. O anncio foi feito depois que Dilma confirmou a indicao de Francisco Teixeira ao comando do Ministrio da Integrao, em substituio a Fernando Bezerra, ligado a Eduardo Campos. At ento secretrio de Infraestrutura Hdrica, Teixeira  ligado aos irmos Gomes e, agora, ter nas mos as principais obras do PAC 2. Somada a um precioso ministrio de primeira linha, a perspectiva de manter-se no poder aps 2014 garantiu a fidelidade dos Gomes e de um contingente de cinco deputados federais, 11 estaduais e metade dos 184 prefeitos de todo o Cear. No PSB, a sada da dupla e de seus aliados era esperada. No perdemos o que nunca tivemos, afirma o lder socialista na Cmara, Beto Albuquerque (RS). 

O problema  que as perdas no se restringem  terra dos Gomes. O grupo de Eduardo Campos tambm foi emparedado na Bahia, em Sergipe, Alagoas e no Piau. A presidenta Dilma ganhou o Nordeste, comemorou o lder do PT na Cmara, Jos Guimares (CE). A senadora Ldice da Mata (PSB/BA), por exemplo, desistiu de enfrentar o governador baiano, Jaques Wagner, do PT. Ldice no est sozinha. Embora Eduardo Campos tenha anunciado que seu partido saiu do governo, seus senadores preferem dizer que ainda fazem parte da base de apoio do governo Dilma. Somos quatro senadores aqui e todos continuaro no bloco de apoio, afirma o senador sergipano Antonio Carlos Valladares.

J o fisiolgico por natureza Solidariedade, do deputado Paulinho da Fora, mudou de postura. Quando foi oficializada h apenas duas semanas, a legenda contou com o apoio explcito do senador Acio Neves, pr-candidato do PSDB. Paulinho e Acio posaram juntos para fotos, fizeram crticas a Dilma e prometeram apoio mtuo em 2014. Mas a lua-de-mel acabou na tera-feira 1, aps encontro de Paulinho com Ideli no Palcio do Planalto. Houve a criao de um partido que no nasceu na rbita do governo, mas j est sendo cooptado em parte pelo governo, lamentou Acio Neves, presidencivel do PSDB. Isso depe contra a democracia, no ajuda que as pessoas se identifiquem nem se aproximem da poltica. Em troca do alinhamento do Solidariedade, Paulinho poder manter os cargos no governo, especialmente no Ministrio do Trabalho, e at ganhar mais espao  inclusive em governos e prefeituras controladas pelo PT. Ele liberou a legenda para as alianas regionais e analisar o plano nacional em 2014 antes de decidir de que lado ficar. Se Dilma continuar crescendo nas pesquisas, parece bvio o desfecho dessa novela.   


4. AS BANCADAS PAGAM A CONTA
Grandes financiadores de campanhas eleitorais, setores estratgicos da economia representados por lobistas no Congresso agora cobram a fatura dos parlamentares
Izabelle Torres

Para entender os bastidores sempre delicados da convivncia entre polticos e o poder econmico, ISTO acompanhou por duas semanas os movimentos de lobistas de diferentes setores na Cmara dos Deputados. Limitando a reportagem a contribuies legais, registradas na Justia Eleitoral, foi  possvel presenciar abordagens cordiais e diretas a parlamentares que devem sua eleio, ao menos em parte, queles cidados que garantiram recursos s suas campanhas e que, agora, se apresentam para cobrar a fatura. 

Alguns casos so didticos. Em debate no Congresso, o novo Cdigo da Minerao recebeu 372 emendas de 46 parlamentares. Desses, apenas sete no receberam dinheiro de empresas ligadas  minerao com interesses especficos em cada artigo que seria votado. Somente o lder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), apresentou 88 dessas propostas de modificao do texto. Sua ligao com o setor  inequvoca. O deputado  responsvel por indicaes para cargos de diretoria do Departamento Nacional de Produo Mineral (DNPM), rgo responsvel por autorizar lavras e fiscalizar as atividades mineradoras, e ainda recebeu ajuda de empresas do setor para pagar as contas de campanha. 

 A maior mineradora do Pas, a Vale, doou R$ 29,96 milhes s principais legendas em atividade no Congresso. As demais somaram contribuies no valor de R$ 43,3 milhes. Financiaram, inclusive, mais de 20% da campanha do relator do novo Marco da Minerao, Leonardo Quinto (PMDB-MG). Agora, as mineradoras trabalham para mudar o projeto original do Executivo. Entre outras coisas, querem impedir um aumento nos royalties, que passariam de 0,2% a 3% do faturamento lquido para um teto de 4% sobre o faturamento bruto, mudana que pode dobrar a receita da Unio nessa rea. Os aliados das mineradoras j conseguiram uma primeira vitria, que foi retirar o carter de urgncia na deciso, transferindo a deciso para o fim do ano ou, quem sabe, depois.  
 
A dificuldade dos polticos para enfrentar a presso de interesses gigantescos tambm aparece nos debates sobre o Marco Civil da Internet. O governo est convencido de que tem votos para aprovar suas propostas. Uma delas prev a manuteno da neutralidade da rede, sistema que impede a venda de pacotes, como querem as teles, que poderiam transformar a internet numa grande tev a cabo, onde cada usurio adquire opes variadas de contedo, pagando preos diversos por cada escolha. O outro ponto impede que as teles tenham acesso aos dados dos usurios, direito limitado aos provedores de contedo, como o Google, que impem essa condio ao cadastr-los. O problema  que o regimento reserva ao presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), o direito de colocar qualquer o projeto em votao. Sempre que  consultado sobre a possibilidade de debater o Marco Civil, Eduardo Alves responde que ir faz-lo depois que as partes entrarem em acordo com o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RN), identificado tambm com os interesses das teles, que despejaram um pacote de quase R$ 30 milhes para os parlamentares capazes de defender seus interesses. A principal fatia, mais de R$ 26 milhes, foi doada pela empresa Contax, cujos scios so tambm donos da Oi. Os recursos chegaram aos diretrios de dez partidos.
 Uma situao semelhante, com o sinal trocado, se assiste no debate que regulamenta a terceirizao de trabalhadores. Um conjunto de 19 mil empresas de todos os tamanhos contribuiu com R$ 2,5 bilhes para as campanhas de 2010. Trs anos depois, um conjunto de 70 companhias de grande porte atua no Congresso, para auxiliar a aprovao da matria, de autoria do deputado-empresrio Sandro Mabel (PR-GO).  difcil enfrentar o poder financeiro dos interessados, reclama o secretrio-geral da Fora Sindical, Sergio Leite.

DUPLA MILITNCIA - O lder do PMDB, Eduardo Cunha, defende os interesses tanto de mineradoras quanto das teles 
 
J o agronegcio possui uma bancada fixa de 120 deputados e 16 senadores, sem falar em adeses eventuais, de acordo com a matria em votao. Sua batalha atual  trazer para o Congresso, onde tem maior poder de barganha,  a palavra final sobre a demarcao de terras indgenas. Na semana passada, 1,5 mil ndios de diferentes etnias pararam a rea central de Braslia para protestar contra as mudanas nas demarcaes. Os ndios fizeram um enterro simblico de polticos da bancada ruralista e ministros envolvidos com a proposta. A reao indgena pode provocar uma reviravolta no desfecho do projeto, que at a semana passada tinha a aprovao dada como certa, mas perdeu a adeso de muitos parlamentares. A votao est marcada para esta semana e at l os ndios permanecero acampados em Braslia, numa tentativa de vencer o poder do lobby do agronegcio.


5. AUTONOMIA X SEGURANA
Lugares inviolveis por lei, as universidades enfrentam uma onda de crimes que pode levar  necessidade de se repensar o sistema de segurana do ambiente acadmico 
Michel Alecrim

 ESCALADA -A UFRJ registrou este ano 33 furtos de carros. No ano passado todo foram oito 
 
O ltimo 11 de setembro foi o dia do terror para a professora M., de 43 anos, do Centro de Cincias da Sade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela ficou em poder de sequestradores armados por quase duas horas e meia, enquanto os bandidos sacavam dinheiro e faziam compras no seu carto. M. foi rendida no estacionamento da faculdade, de dia, e liberada quase  noite, na Baixada Fluminense. A professora  mais uma das muitas vtimas de crimes praticados em cidades universitrias  grandes reas com autonomia administrativa e acadmica assegurada pela Constituio Federal. Mas a autonomia que garante a no interferncia na produo e ensino do conhecimento  a mesma que, hoje, no permite a entrada de polcia em territrio acadmico. A averso por homens armados e fardados vem do perodo da ditadura, quando faculdades eram invadidas, pessoas eram presas e desapareciam. Mas, na democracia, essa conquista de valor inquestionvel tem levantado polmica, uma vez que a escalada criminosa no ambiente universitrio s cresce.
 
A UFRJ  uma das poucas que contabilizam e divulgam as estatsticas, porm muitos fatos no chegam a ser notificados, como o nmero de estupros. Mas os furtos de carros, sempre registrados (por causa do seguro), servem de termmetro: entre janeiro e agosto deste ano foram 33, contra oito no mesmo perodo do ano passado. Os campi no podem mais ser tratados como lugares inviolveis ou santurios.  inevitvel que haja segurana pblica tambm nesses espaos. Isso no ocorre porque h um preconceito ideolgico gerado na ditadura, avalia o professor de administrao pblica da Universidade Mackenzie Rio, Newton Oliveira. Depois que o aluno de engenharia Denis Papa Casagrande, 21 anos, foi morto com uma facada na madrugada de 21 de setembro na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a reitoria pediu reforo  Polcia Militar, e as rondas, que eram espordicas, foram intensificadas. O casal suspeito do crime est preso. No  inteno da universidade ter uma base da polcia dentro do campus, mas avaliamos falhas para saber que medidas tomar. De qualquer forma, precisaremos de fato do auxlio da PM e da Guarda Municipal, explicou a pr-reitora de Desenvolvimento Universitrio, Teresa Dib Atvars. Os estudantes no concordam com a medida. Na quinta-feira 3, eles invadiram a reitoria para protestar contra a presena de policiais no ambiente acadmico.

NA USP - O estudante de biologia Pedro Vidal j foi assaltado. A PM est mais presente, mas ele critica as ruas mal iluminadas e a falta de nibus  noite 
 
A Unicamp j conta com 252 vigilantes e 262 cmeras. Por ano, h, em mdia, dez furtos de carros. No ano passado, foram furtadas 90 bicicletas. No entanto, muitos temem pela presena de policiais no campus. Eles (PMs) passam com cachorros.  amedrontador. Esto usando o crime como pretexto para a militarizao, diz a estudante Mariana Toledo, coordenadora do Diretrio Central Acadmico da Unicamp. Para o socilogo e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Glaucio Soares, a reao da estudante  previsvel, pois universitrios, historicamente, tm averso  polcia. O criminoso sabe perfeitamente das vulnerabilidades dos campi e sabe que nesses lugares h pessoas com alto poder aquisitivo. O potencial para a criminalidade  muito grande, avalia. 

A UFRJ contratou 20 profissionais de segurana que passaram a fazer, desde o ms passado, rondas em bicicletas, e um dos acessos foi fechado. A Polcia Militar circula pelas principais vias do Fundo  nome da ilha na qual est localizada a UFRJ, na zona norte carioca , mas est impedida de adentrar nas faculdades e em algumas reas, como o estacionamento, onde ocorrem muitos crimes. Sequestrado em 2011 pela manh enquanto estacionava o carro, um estudante de engenharia de 25 anos, que pede anonimato, acredita que nada disso vai adiantar. Na delegacia me disseram que no podiam fazer nada porque as imagens das cmeras no tm definio, lamenta o jovem, que ficou quatro horas sob a mira de armas.
 
A prpria universidade registrou nove sequestros desse tipo no ano passado e sete este ano. Uma aluna do Centro de Tecnologia, que tambm no quis se identificar, contou que um bandido a espancou, em 2012, e que quase foi levada por eles. Pulei do carro e sa correndo. Depois, na delegacia disseram que no tinham muito o que fazer e que os sequestros so frequentes no Fundo, lamenta ela, at hoje traumatizada. O delegado Jos Otilio Bezerra, titular da 37 DP, na Ilha do Governador, diz que muitas vtimas no registram os casos na delegacia, o que prejudica a investigao, a priso dos criminosos e o conhecimento do tamanho do problema. No caso dos sequestros relmpago,  comum que sejam notificados perto de onde a pessoa  solta. Fiz um levantamento e s encontrei cinco roubos no Fundo este ano. Assim, fica mais difcil identificar as quadrilhas, explica o delegado.

NA UFRJ - Aluna do Centro de Tecnologia apanhou de um bandido no ano passado numa tentativa de sequestro. Ela conseguiu escapar e deu queixa na delegacia 
 
Na Universidade de So Paulo (USP), a PM j atua h dois anos, apesar dos protestos de boa parte dos alunos. O estudante de biologia Pedro Vidal, 20 anos, acredita que a sensao de insegurana  a mesma e h ruas mal iluminadas e falta de nibus  noite. Estava no ponto com mais quatro pessoas e fomos todos assaltados. Depois, soube que no mesmo lugar voltaram a roubar outras vezes, conta. A universidade comeou a implantar nova iluminao no campus do Butant, na zona oeste da capital, na quarta-feira 25. O primeiro local beneficiado foi a Faculdade de Economia, Administrao e Contabilidade (FEA), onde foi morto o estudante Felipe Ramos de Paiva em 2011. Ao todo, sero gastos R$ 40 milhes em toda a Cidade Universitria.
 
As instituies privadas tambm so vtimas. No incio de setembro, um assaltante armado chegou a invadir uma sala de aula do curso de comunicao social da Pontifcia Universidade Catlica (PUC), de Porto Alegre, e levou tudo o que podia dos alunos. A instituio admitiu que o esquema de segurana est sendo reforado, com mais cmeras e criao de um nmero de telefone especfico para emergncias. O desafio e saber como assegurar a autonomia sem que os campi se transformem em territrio sem lei.

